Uma homenagem a Kardec

Fui solicitado a escrever um texto para homenagear Kardec, já que agora em outubro de 2019, ele irá completar 215 anos de vida. Digo vida, porque a morte é apenas uma passagem de plano e continuamos mais vivos do que nunca.

Inicialmente, fiz uma reflexão com relação à data comemorativa, pois quem realmente nasceu em 03 de outubro de 1804 foi Hippolyte Léon Denizard Rivail, já que Allan Kardec surgiu para a humanidade como pseudônimo do Sr. Rivail, quando do lançamento de O Livro dos Espíritos, em 18 de abril de 1857. Como o nome não deve mudar o homem, não importa se Kardec ou Sr. Rivail, em outubro comemoramos o seu nascimento e em   abril o surgimento da doutrina espírita.

Equacionada a questão da data, surgiu a dúvida de como homenageá-lo uma vez que é convencional, nestes casos, escrever sobre o homem, sua trajetória de vida, suas realizações, dificuldades superadas e o legado que deixou de sua obra.

Conversando com o companheiro da instituição espírita que me encomendou o texto, este me sugeriu que eu poderia escolher um ensinamento marcante de Kardec e desenvolvê-lo, ressaltando a importância deste conhecimento para o edifício de sua obra. Inicialmente, não me empolguei com a ideia, mas, depois, vi que seria uma experiência interessante e um pouco fora do convencional.

Fiquei idealizando, de tantos conhecimentos divulgados por Kardec qual seria o mais apropriado para homenageá-lo. Surgiu, então, na minha mente um trecho da frase que consta na abertura de O Livro dos Espíritos para sua apresentação ao público em geral “…segundo o ensinamento dos espíritos superiores, através de diversos médiuns, recebidos e ordenados por Allan Kardec”.

Podemos concluir que a doutrina espírita foi construída, ou melhor, organizada em conteúdo e prática através da observação de Kardec, das manifestações mediúnicas e da comunicação dos espíritos, por meio de diversos médiuns, ou seja, intermediários entre o plano físico e o espiritual.

Isto significa que sem a comunicação dos espíritos não teria surgido o espiritismo, pois foram estes as “vozes” que ecoaram demonstrando de forma inequívoca a imortalidade e a sobrevivência do espírito, já que  existe vida antes da vida, durante a vida  e após a vida, ou melhor, a morte como a conhecemos não existe.

Desta forma, encontramos o tal conhecimento para homenagear Kardec, a comunicação mediúnica. Vale salientar que Kardec não “incorporava espíritos”, mas tinha um bom senso, um sentido único de percepção e uma técnica que se fundamentava na observação, universalidade dos ensinos, comparação das comunicações recebidas, e, por fim, no julgamento dos fatos. Kardec foi fiel ao ensinamento dos espíritos, conforme transcrevemos abaixo, a orientação de Erasto de O Livro dos Médiuns, capítulo XX.

“Ao aparecer uma nova opinião, por menos que vos pareça duvidosa, passai pelo crivo da razão e da lógica. O que a razão e o bom senso reprovam, rejeitai corajosamente. Mais vale rejeitar dez verdades do que admitir uma única mentira, uma teoria falsa”.

Foi utilizando a comunicação mediúnica de diversos espíritos e aplicando a regra acima, que Kardec construiu a doutrina espírita, através de diversos médiuns e sob a supervisão dos espíritos superiores, representados pelo Espírito da Verdade.

Em seus manuscritos que estão inseridos em “obras póstumas”, Kardec concluiu, das suas observações, que sendo os espíritos as almas dos homens, estes não possuíam a soberana sabedoria, nem a soberana ciência e que o seu saber era limitado ao grau de adiantamento, assim como a opinião dos espíritos só tinha o valor de uma opinião pessoal. Ele ainda cita que esta verdade lhe preservou do perigo de acreditar na infalibilidade dos espíritos e o livrou de formular teorias prematuras.

O método utilizado por Kardec para organizar a doutrina espírita justifica-se pela sua personalidade. Segundo Anna Blackwell que o conheceu e foi a tradutora de suas obras para o inglês, Kardec “parecia mais alemão que francês: enérgico, determinado, de temperamento calmo, cauteloso, não imaginativo, quase chegava a frieza, era incrédulo, por natureza e educação; pensador rigoroso e lógico, eminentemente prático de pensamentos e atos, mantinha-se longe de misticismos e arrebatamentos; grave, vigoroso no falar, de simples, deixava transparecer a dignidade serena, resultante da determinação e da franqueza”.

Esta sua personalidade foi de muita importância, pois como ele mesmo diz em obras póstumas “fui alvo do ódio de inimigos intransigentes, da calúnia, da inveja e do ciúme; infames libelos foram publicados contra mim; as minhas melhores instruções foram adulteradas; fui traído por aqueles em quem mais confiava e pago com ingratidão por aqueles que servi”. Ele também registra que graças à proteção e assistência dos bons espíritos não lhe faltaram ânimo ou coragem prosseguindo com a sua obra, com o mesmo ardor, sem se preocupar com as setas que lhe jogavam.

Bem, como já estamos extrapolando o planejamento do texto, vamos retomar o assunto.

Mas, como se dá esse processo de comunicação dos espíritos, segundo Kardec? Que princípios e leis estão envolvidos?

Sabemos que seu mecanismo é complexo e pouco conhecido em seus detalhes, principalmente, porque envolve um espírito comunicante que se encontra em uma dimensão diferente da do médium, com suas características próprias e distâncias que não são métricas e sim vibracionais.

Inicialmente, Kardec explica no item 109 de O Livro dos Médiuns que o perispírito é o princípio de todas as manifestações. Todos nós, encarnados e desencarnados, possuímos este corpo espiritual. Quando encarnados o nosso perispírito está ligado ao corpo físico. Ao “morrer” o perispírito se desliga do corpo físico e vivemos no novo plano de vida com este corpo espiritual, sutil e apropriado à nova vida. Ele nos diz que o perispírito não está encerrado nos limites do corpo físico, pois ele é expansível e irradia em torno do corpo como uma espécie de atmosfera fluídica.

Kardec observa:

“As relações entre os Espíritos e os médiuns se estabelecem por meio dos respectivos perispíritos, dependendo a facilidade dessas relações do grau de afi­nidade existente entre os dois fluídos. Alguns há que se combinam facilmente, enquanto outros se repelem, donde se segue que não basta ser médium para que uma pessoa se comunique indistintamente com todos os Espí­ritos. Há médiuns que só com certos Espíritos podem comunicar-se ou com Espíritos de certas categorias, e outros que não o podem a não ser pela transmissão do pensamento, sem qualquer manifestação exterior”.

E continua.

“Por meio da combinação dos fluídos perispiríticos o Espírito, por assim dizer, se identifica com a pessoa que ele deseja influenciar; não só lhe transmite o seu pensamento, como também chega a exercer sobre ela uma influência física, fazê-la agir ou falar à sua vontade, obrigá-la a dizer o que ele queira, servir-se, numa palavra, dos órgãos do médium, como se seus próprios fossem”.

Ainda em Obras Póstumas no item Da obsessão e da possessão, Kardec refere-se à expansão do perispírito como se fosse um manto;

“Quando um Espírito, bom ou mau, quer atuar sobre um indivíduo, envolve-o, por assim dizer, no seu perispí­rito, como se fora um manto. Interpenetrando-se os fluídos, os pensamentos e as vontades dos dois se con­fundem e o Espírito, então, se serve do corpo do indi­víduo, como se fosse seu, fazendo-o agir à sua vontade, falar, escrever, desenhar, quais os médiuns”.

Kardec diz ainda que a comunicação do pensamento do espírito pode dar-se também por meio do espírito do médium. Neste caso, o espírito comunicante não age sobre a mão do médium para fazê-la escrever, não a toma nem a guia, apenas ele irradia o seu pensamento que é captado pelo médium que o interpreta e o transmite. Ele também pode falar em vez de escrever, transmitindo o pensamento do espírito. Temos a chamada mediunidade intuitiva em que o médium é apenas um intérprete da mensagem.

A mediunidade intuitiva é semelhante ao processo de transmissão de ondas de rádio, ou seja, o espírito comunicante transmite o pensamento através ondas mentais e a mente do médium em sintonia capta as ondas pensamento, as interpreta e aciona as áreas do cérebro transformando o pensamento em linguagem falada ou escrita estabelecendo a comunicação da mensagem do espírito.

Portanto, temos dois tipos básicos de mecanismo de comunicação mediúnica a mediunidade mecânica em que o espírito e o médium interpenetram seus fluidos perispiríticos e o espírito comunicante atua diretamente na mão do médium, via perispírito, e a mediunidade intuitiva cujo mecanismo é através da captação do pensamento do espírito semelhante a um processo telepático.

Vale ressaltar que Kardec geralmente se refere à mediunidade escrevente ou psicografia, pois era a mais comum na época. Os mesmos mecanismos se aplicam também para a mediunidade falante ou psicofonia.

Para não nos alongarmos muito, fica claro que Kardec nos legou as informações básicas da comunicação mediúnica, ficando para a posterioridade o aprofundamento e detalhamento do processo. Aos poucos, novos conhecimentos vão surgindo mediante esforços de alguns estudiosos, mas isto é assunto para uma outra ocasião, já que nosso objetivo é homenagear Kardec neste mês de aniversário do seu nascimento. Parabéns Kardec, onde quer que você esteja, somos agradecidos pelos seus ensinamentos e esforços para libertar nossos espíritos da escuridão. Muita paz!

Ismael Portugal (membro do Ideba)