Um Homem Bom

Baseado na peça do escocês Cecil Philip Taylor (1929-1981), o drama Um Homem Bom (Good, 2008) acompanha o professor de literatura John Halder, o “bom homem” do título, pai de família com uma esposa problemática, um sogro intrusivo e uma mãe doente. O fato de Halder escrever um romance de ficção defendendo a eutanásia não teria desdobramentos mais dramáticos, se não corresse o ano de 1933, em Berlim. É a ascenção de Hitler, e as palavras de Halder tomam uma leitura totalmente desvirtuada.
Defende-se historicamente que a sociedade alemã não tinha conhecimento do genocídio de judeus nos campos de concentração nazistas. O professor Halder, vivido por Viggo Mortensen ( Senhores do Crime ) no filme dirigido por Vicente Amorim ( O Caminho das Nuvens ), é um deles.
A certa altura da história, uma das alunas de Halder questiona, diante de uma passeata do partido nazista cheia de civis entusiastas, se “algo que deixa as pessoas tão felizes pode ser ruim”. Essa é a questão central de Um Homem Bom e, também, a chave para entender a chegada de Hitler ao poder – regime que Hadler apostava, no começo do filme, muito antes da Segunda Guerra, que “não fosse durar”.
O caos econômico pós-Primeira Guerra é o principal motivo de Hitler ter sido visto como salvador, com seu discurso revanchista, pelo povo alemão. A casa do professor Halder no filme, a grosso modo, é a metonímia da Alemanha: muito ensopado de legume cozido para o almoço e o jantar, a tradução mais cinematográfica da recessão do período. Amorim não oferece meio-termo nessas cenas: a casa de Halder é sempre muito escura, depressiva e opressiva, enquanto as principais interações do professor com aquela aluna citada acima acontecem a céu aberto, com muita luz.
Apenas nos salões das festas do partido há mais luz do que nos jardins a céu aberto – o que, sem entregar muito da história, já indica o caminho que o homem bom decide tomar para si.
A questão da iluminação de cena é uma das formas que o diretor brasileiro (ou melhor, “diretor do mundo”, já que o filho do então diplomata e hoje ministro Celso Amorim aprendeu a ser cosmopolita desde pequeno) arruma para didatizar o filme. O texto explicativo, com as discussões entre o professor e a aluna e entre o professor e seu colega psicanalista judeu, é outra forma. Cinema para as massas tem disso.
Um Homem Bom se enquadra, portanto, na linha dos filmes-de-Holocausto “de respeito” que Hollywood realiza sazonalmente: com uma reconstituição cenográfica impecável, atuações dignas, permitindo-se arroubos “de arte” como o bonito plano-sequência final e colocando a mensagem humanista em primeiro lugar.

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