Um Conto do Destino

Akiva Goldsman leu Winter’s Tale, o denso livro de Mark Helprin que dá origem a Um Conto do Destino, à época do seu lançamento, no início da década de 80. Da leitura passou a uma perseguição, que se estenderia por quase 30 anos, buscando transformar o romance em filme. Quando os direitos retornaram ao autor, depois de décadas circulando por Hollywood, o roteirista conseguiu abordar Helprin diretamente e conquistou, finalmente, o privilégio de levar a história ao cinema.

Em 2010, enquanto escrevia o script, sua esposa, a produtora Rebecca Spikings-Goldsman, faleceu repentinamente. A história do ladrão órfão Peter Lake e seu amor que cria milagres, supera o mal, a morte e o tempo, passou então a ser a sua razão de viver. Na tentativa de dar lógica à perda, porém, Goldsman criou um filme tão pessoal que foi incapaz de se relacionar com o público, sendo ojerizado pela crítica e ignorado nas bilheterias dos EUA.

Ou, talvez, o filme seja inteligível apenas para um público específico. “É um conto de fadas para um certo tipo de adulto”, explica o roteirista, que também produz e faz sua estreia como diretor de longa-metragem em Um Conto do Destino. Uma história para quem, como ele, precisou lidar com a morte de alguém querido. Esse caráter peculiar, contudo, condicionado pela natureza complexa do realismo fantástico do livro de Helprin, precisava de um certo distanciamento para funcionar no cinema. A dor real impossibilitou o autoquestionamento necessário para tornar o universo mítico verossímil e seus personagens tridimensionais.

Os atores – amigos e antigos colaboradores como Russell Crowe e Jennifer Connelly de Uma Mente Brilhante – se esforçam para entender e traduzir a paixão da adaptação. Até Will Smith, que não costuma aceitar ser mero coadjuvante, participa do longa em solidariedade ao roteirista de Eu, Robô e Eu Sou a Lenda. Lealdade e dedicação que não superam as carências do filme. O elenco parece perdido, especialmente o protagonista Colin Farrell, tentando decifrar e se relacionar com uma história realista de anjos, demônios e cavalos voadores pelas ruas de Nova York.

Falta vigor à fantasia de Um Conto do Destino, sobra verdade em Akiva Goldsman. Ainda que nem todos compreendam o filme, sua busca chegou ao fim. Agora é possível seguir em frente.

Fonte: https://www.omelete.com.br/filmes/criticas/um-conto-do-destino-critica

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