Trabalha! O dia mal começou.

Em tua jornada, muitas vezes silenciosa no mundo, inúmeros olhares te acompanham as ações ou te registram os mínimos movimentos. Pessoa alguma, salvo isolamento absoluto, está isenta do aguçado senso de observação do outro.

Patrões vigiam seus funcionários, entre eles descobrindo os relaxados da tarefa e aqueles que sabem otimizar o labor que lhes garante a subsistência.

Oficiais acompanham o desenvolvimento de praças, anotando em fichas próprias o interesse pela vida da caserna e o denodo com que vestem a farda militar.

Professores identificam em sala de aula o aluno aplicado e o vampiro dos colegas, ministrando corretivos pedagógicos específicos.

Pais atenciosos anotam pelo coração o comportamento desse ou daquele filho, em percebendo pendores para essa ou aquela atividade cultural ou maneira com que o descendente enxerga a vida.

Dessa forma, estamos todos em marcha pelos insondáveis caminhos da vida sob o olhar atento de quem nos inveja ou odeia, ama ou quer bem. Em diversos ambientes onde nos movimentamos diariamente, notadamente o quadrado familiar, o agitado local de trabalho, a escola e o templo religioso, temos muitos olhares e câmeras oculares direcionadas ao nosso existir, algumas discretas e outras afetadas.

O olhar da inveja é sempre ácido, conflitante, traduzindo o quanto o ser invejoso se apequenou na sua mágoa contra si mesmo. A observação que busca pontos falhos em nosso proceder para municiar a crítica ferina, destruidora, onde o franco atirador acredita ter tudo a ganhar e nada a perder quando surgir a ocasião do tiroteio verborrágico.

Mas nem tudo são espinhos, más intenções, apedrejamento moral. Tem criaturas que nos acompanham em silêncio, otimistas e esperançosos com nosso proceder.

Outros, buscam nos enxergar pelo ângulo da superioridade moral, nos rotulando, para elas, de almas redimidas.

Mais algumas nutrem o desejo da convivência afetiva próxima, mas tomadas pela timidez, não ousam declarar pelo verbo o sentimento que lhes vai na alma sonhadora.

Há quem nos ame pelo olhar, e há quem nos deteste pelo mesmo canal.

Observados ou observadores, estamos todos no mesmo barco e rumando para o mesmo porto. Singularidades, detemos especificidades que nos diferenciam uns dos outros. Sombras ainda atestam nossa baixeza nesse ou naquele setor da convivência humana. Luz e altruísmo já conseguem sinalizar, de alguma maneira, que estamos em lutas difíceis contra as próprias imperfeições.

Não nos detenhamos na marcha porque esse ou aquele companheiro nos endereçou o olhar do azedume ou da malevolência. Existem estiletes de trevas que, quando absorvidos, são capazes de entravar a caminhada de muitos desprevenidos, tanto quanto a palavra de estímulo pode nos catapultar a grandes realizações no campo das atividades nobres.

Importa selecionar diariamente as vibrações sutis que emanam incessantemente de quem nos rodeia, considerando que além das fronteiras materiais, uma outra humanidade, despojada do carro orgânico pelo impositivo da morte, nos segue os passos em silêncio.

Uns torcem, outros conspiram.

Legiões se articulam por nosso desastre moral e cavilam pelo soçobro existencial. Mentes ardilosas insuflam o medo, a desconfiança e o pessimismo, como quem injeta lodo nas veias. Nas mesmas condições, corações pacificados nos seguem a marcha terrestre, emitindo em nosso favor as melhores intenções. Inspiram boas resoluções. Sugerem mentalmente alternativas ao problema. Sorriem e se rejubilam com nossos tentames exitosos, nos amparando nas quedas prováveis.

Os nomes correm por conta de cada um. Anjos, guias, exus, protetores, adversários invisíveis, obsessores, etc.

Importa reconhecer: ninguém marchando sem retaguarda. Nenhum filho de Deus ao léu ou entregue à própria sorte.

Os olhares reagem ao nosso proceder. Cada ser possui as companhias a que faz jus pelas vibrações que emite.

Dize-me como pensas e dir-te-ei quem são tuas companhias nesse mundo, afirma o velho brocardo, aqui alterado para melhor ajuste ao nosso raciocínio de momento.

Se optaste por uma vida indigna, assinalada por grilhões mentais ao vício e a uma conduta desviada, suporta o olhar de reproche e aguenta a crítica ácida. Se, ao contrário, resolveste adotar uma postura nobre e digna, onde o altruísmo te constitua êmulo ao viver, suporta o aguilhão mental dos pigmeus morais, das almas rasteiras e dos inquisidores de ocasião.

Estarão eles, quase sempre, em maior número do que as almas venturosas e otimistas, retrato vivo de um mundo de provas e expiações, onde o mal ainda predomina. Até que alguns se decidam pela conduta reta e pelo pensamento sadio, teremos no mundo quem esteja de atalaia, qual sentinela raivosa, na torre da observação ferina, buscando achar uma falha na conduta do outro.

Tem paciência com eles. Já estiveste lá um dia.

Também já fostes algoz de teu irmão.

Se hoje a mensagem do Cristo já te lançou pequenina claridade em teu sombrio mundo íntimo, és um afortunado e de ti Jesus espera outra postura.

Observa, reflete se não farias o mesmo, sacode o pó de tuas sandálias e segue. Com Jesus, as palavras são poucas e as ações são mais valiosas.

Pensando nisto, sem que possas notar, tem gente te observando enquanto lês essa página singela.

O que estará ruminando a teu respeito?

Esse juízo não te pertence.

Trabalha! O dia mal começou.

Autor: Marta (Espírito)
Psicografia: Marcel Mariano
Salvador, 21.12.2022

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