Reconheces essa verdade?

Em tempos recuados da história, a sobrevivência dos poucos agrupamentos humanos era difícil e angustiosa.

Vivendo exclusivamente da caça, pesca e coleta de frutas e raízes, cada dia era obrigado a sair para os vastos campos, tentando abater antílopes e gazelas para alimentação do clã que ficara na retaguarda.

Tribos hostis, oscilações térmicas, armas toscas e rudes não permitiam uma coleta eficiente e nem sempre se conseguia o alimento de cada dia. Por várias semanas, experimentava-se fome e escassez, o que deflagrava conflitos em torno da liderança de jovens guerreiros.

Séculos depois, quando a domesticação de animais e os primórdios da agricultura sedentarizaram o homem e sua parentela, a sobrevivência se lhe tornou mais fácil.

Milhares e milhares de séculos sucederam-se no relógio do tempo, onde eras tribais foram vivenciadas e superadas, surgindo na aurora das culturas o verniz do aprimoramento e da arte, da política e das religiões, facultando o surgimento de grandes impérios, hoje devorados pelo tempo e consumidos pelas areias escaldantes do deserto.

Ergueram-se formidáveis indústrias, o comércio se alastrou pelo mundo nas vias marítimas, os campos se fizeram celeiros extraordinários de safras abundantes e a prestação de serviços acolheu milhares de servidores em outras áreas.

Conforto de máquinas sofisticadas, virtualidade no campo e orientação para o melhor momento da plantação e colheita são mecanismos hoje inseparáveis de uma economia global que se movimenta em torno de casas de câmbio e bolsas de valores, a se agitar diariamente em cifras de trilhões de dólares.

Apesar do colosso e da musculatura da economia mundial, as inquietações humanas persistem, dolorosas e cruéis. O flagelo da insegurança alimentar se abate, cada manhã, sobre milhões de bocas famintas. Água potável a faltar em regiões áridas e desérticas, ameaçando a vida humana e animal. Florestas inteiras transformadas em carvão. Minas e garimpos diversos buscam explorar as inúmeras jazidas desse ou daquele minério raro, fomentando cobiça e desespero entre os homens.

E mesmo quando a máquina produtora de riqueza, regida pelo Estado, consegue emprestar a quase totalidade de homens e mulheres, milhões ficam à margem, mendigando ajuda pública ou privada para não perecerem na canícula da fome.

Apesar dos institutos de solidariedade, persiste a avareza de muitos sobre os imensos recursos disponíveis. Os esforços religiosos se mostram tímidos ou insuficientes quando conclamam os seres ao partilhamento do pão.

Em tempos de murici, cada um cuida de si, diria o ditado popular, mas a ganância só pode ser vencida pelo desapego, a arrogância pela humildade e o orgulho pela solidariedade.

A Terra tem suficientes recursos para alimentar a atual população de oito bilhões de habitantes, mas a cobiça e o desejo arbitrário de posses além do necessário criaram legiões de vampiros modernos, até ao contrário do Conde Drácula, não sugam artérias em busca de sangue fresco. Se fazem parasitas das riquezas materiais, acumulando-as na ilusão de que estas lhes pertenceriam.

Se agitam entre cifrões.

Dormem pensando na caixa forte.

Esses tio patinhas modernos se angustiam demoradamente pela retenção cada vez maior de recursos argentários, olvidando que a vida não se resume em cartões de crédito e extratos bancários.

Deixam de viver e passam simplesmente a sobreviver.

Midas modernos, tudo que tocam vira ouro.

O Cristo já os identificara em Seu tempo. Fizeram do templo de Jerusalém casa de comércio vil. Mancomunados com os romanos impiedosos, extorquiam as escassas moedas do povo em subjugação criminosa.

Faziam das festas religiosas motivos para mais arrecadar.

No grupo mais íntimo, Jesus acompanhava a sede de poder em Judas, que mal conseguia ocultar seu desejo que a nova doutrina triunfasse sobre Roma, abrindo campo para uma nova aristocracia, poderosa e imbatível.

E Ele viera pregar desprendimento e libertação das amarras do mundo.

Nunca possuíra sequer uma casa, sempre se hospedando em lares alheios.

Tudo de que se valia, era emprestado por terceiros.

Nele, somente a luz divina era Sua, e a repartia com cegos e coxos, estigmatizados e perseguidos.

Governador da Terra, optara por uma maternidade improvisada numa gruta de pedra. Senhor dos séculos, caminhava entre aflitos e derrotados, insuflando otimismo e esperança.

Abriu a homens e mulheres os cofres da vida eterna, sem que estes se esgotassem.

Exaltou o lírio do campo, as aves que não guardam nem estocam e viveu na permanente simplicidade. Como trono derradeiro, acolheu uma cruz e fez dela símbolo de triunfo sobre as paixões. Subiu de volta ao Pai, prosseguindo a velar pelos destinos do Seu imenso aprisco.

Quanta coisa em derredor de teus passos de que não necessitas! Quanto supérfluo que te inquieta a não posse!

Invejas a celebridade que desfila à tua frente em valioso veículo moderno? E à noite, este não consegue repouso adequado, carregando na alma estranhos fantasmas que só ele enxerga. E tu, em cama modesta, a dormir o sono dos justos.

Valoriza outra riqueza que não essa, passageira e volátil. O que tens ou possuí, ficará. O que acrisolastes na alma, seguirá e falará por ti nos portais do infinito.

Quanto mais acumulas, mais prisioneiro ficas.

Quanto menos tens, mais senhor de ti mesmo és.

Sutil diferença que só a maturidade, no veículo da dor e do sofrimento, poderá ministrar aos equivocados filhos da luz, em trânsito pelos baixios da evolução na escola do mundo.

Reconheces essa verdade?

Vive-a desde hoje para que o amanhã não te surpreenda com amargas decepções.

Autor: Marta (Espírito)
Psicografia: Marcl Mariano
Salvador, 07.11.2022

68 Visita(s) a esta matéria.