Página do Evangelho – O duelo

O duelo

Que juízo farão de mim, costumais dizer, se eu recusar a reparação que se me
exige, ou se não a reclamar de quem me ofendeu? Os loucos, como vós, os homens atrasados
vos censurarão; mas, os que se acham esclarecidos pelo facho do progresso intelectual e
moral dirão que procedeis de acordo com a verdadeira sabedoria. Refleti um pouco. Por
motivo de uma palavra dita às vezes impensadamente, ou inofensiva, vinda de um dos vossos
irmãos, o vosso orgulho se sente ferido, respondeis de modo acre e daí uma provocação.
Antes que chegue o momento decisivo, inquiris de vós mesmos se procedeis como cristãos?
Que contas ficareis devendo à sociedade, por a privardes de um de seus membros? Pensastes
no remorso que vos assaltará, por haverdes roubado a uma mulher o marido, a uma mãe o
filho, ao filho o pai que lhes servia de amparo? Certamente, o autor da ofensa deve uma
reparação; porém, não lhe será mais honroso dá-la espontaneamente, reconhecendo suas
faltas, do que expor a vida daquele que tem o direito de se queixar? Quanto ao ofendido,
convenho em que, algumas vezes, por ele achar-se gravemente ferido, ou em sua’ pessoa, ou
nas dos que lhe são mais caros, não está em jogo somente o amor-próprio: o coração se acha
magoado, sofre.

Mas, além de ser estúpido arriscar a vida, lançando-se contra um miserável capaz de praticar
infâmias, dar-se-á que, morto este, a afronta, qualquer que seja, deixa de existir? Não é exato
que o sangue derramado imprime retumbância maior a um fato que, se falso, cairia por si
mesmo, e que, se verdadeiro, deve ficar sepultado no silêncio? Nada mais restará, pois, senão
a satisfação da sede de vingança. Ah! triste satisfação que quase sempre dá lugar, já nesta
vida, a causticantes remorsos. Se é o ofendido que sucumbe, onde a reparação?
Quando a caridade regular a conduta dos homens, eles conformarão seus atos e
palavras a esta máxima: “Não façais aos outros o que não quiserdes que vos façam.” Em se
verificando isso, desaparecerão todas as causas de dissensões e, com elas, as dos duelos e das
guerras, que são os duelos de povo a povo. – Francisco Xavier, (Bordéus, 1861.)

Fonte: KARDEC. Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 1996. Cap. XII Amai os vossos inimigos. p.204-205