O Cristo chama todos!

Quantas marcas emocionais ficam impressas numa existência?

Quantas mossas morais sulcam o delicado tecido da honra e da sensibilidade de um homem?

Até onde vai a capacidade do indivíduo de suportar um revés na vida?

São oportunas interrogações de que não podemos nos furtar de fazer periodicamente. Espalhados no globo, experimentando as mais diversas situações de natureza evolutiva, cada ser tem um ponto próprio de suportação e tolerância aos reveses da vida.

Contrariados em muitas circunstâncias não raro sucumbem à perda do sentido existencial e eliminam, pelo suicídio, o vaso material, penetrando na noite escura da alma.

Feridos nos brios, muitos manejam o desforço imediato, desprezando as reflexões que permitiriam agir em vez de reagir, criando maiores embaraços ao próprio existir.

Traídos no afeto, não raro se fazem clavas de ódio e vingança surda, erguendo armas com que eliminam pelo homicídio aquele que deu causa à sua desonra social.

Incontáveis seres penetram nos sombrios labirintos da depressão diante de ocorrências que não sabem lidar ou não compreendem sua ocorrência saneadora de ilusões e fantasias.

E sempre que as expectativas são contrariadas, muito costumeiro que o ser humano se deixe arrastar pela lamentação, pela vitimização e pela apatia. Raramente, se observa o atingido fazer da própria queda ou fracasso êmulo para repensar o viver, ressignificar o agir e mudar a forma de encarar a vida.

E dessas posturas podem resultar grandes e graves alterações de rota.

Recomeço de velhas atividades, sob dinâmica diferente. Desistência de tudo porque não se conseguiu assimilar a lição contida no aparente fracasso.

O atingido abandona o ninho doméstico, se projeta no mundo e vai buscar novo campo de atuação, se reinventando como pessoa e como profissional. Outros, elegem a amargura como companhia, se fazem párias sociais e convertem a boca num amplificador de misérias e lamentos.

Machucados, alguns poucos relevam as próprias dores e avançam sobre terrenos inexplorados, fazendo de seus ferimentos exemplo de superação e resiliência. Uma parte muito significativa dos indivíduos opta por alegar o abandono divino, acusar a família pela ausência de apoio e se deixar tragar pela lassidão dos sentidos.

Ninguém no mundo que esteja blindado contra ocorrências contrárias aos próprios interesses. Ser humano algum imune ao sofrimento. Nenhum cristão, pelo simples fato de adotar a mensagem de Jesus, que esteja forrado ao desencanto, ao cilício e aos testemunhos periódicos.

Pelas ocorrências da estrada o Mestre vai conferindo quem realmente entendeu a mensagem e as circunstâncias difíceis costumam separar o trigo do joio.

Aquele que bebeu nas fontes amargas o fel da incompreensão sabe, antecipadamente, que o mundo não tem muitas flores e que os espinhos costumam ser abundantes.

Que aos dias ensolarados costumam suceder noites tempestuosas.

Que períodos de calmaria podem pressagiar instabilidade colossal a caminho.

A fartura de agora pode significar a véspera da escassez dolorosa.

A saúde robusta é vencida pela doença insidiosa, o afeto buscado nunca é encontrado, a calmaria desejada está sempre tisnada pela ansiedade e o barulho impede o reinado do silêncio.

O discípulo da Boa Nova está sempre em constante experimentação. Forças do alto o amparam em cada lance da vida, mas ninguém é situado em regime de privilégio. O Bom Pastor segue, com infinito carinho, cada ovelha Sua pelos caminhos terrestres, mas surgem ocasiões que, pela rebeldia ou presunção, nos afastamos do cajado de segurança e nos embrenhamos em estranhos campos, onde o Senhor nos permite cultivo das próprias ilusões, ofertando à invigilância preciosas lições de vida e maturidade.

Não por outro motivo o martirológio cristão tem sido intenso nos últimos vinte séculos. O Cristo chama todos, mas somente alguns poucos aceitam as correções da estrada.

Quase todos buscam saber qual é o salário da adesão aos ensinamentos de Jesus, mas raramente compreendem o preço a pagar pelo próprio burilamento.
Ainda é muito difícil abandonar mantos de fantasias e crenças cegas.

O poder espiritual é ambicionado por muitos como um varinha de condão, capaz de mudar o curso de um rio ou reabilitar uma pupila cega para o retorno a clarividência plena.

A maior transformação do adepto da mensagem cristã nunca estará refém da compulsória conversão do outro, e sim da constante e paulatina mudança de compreensão da vontade divina a nosso respeito.

Aceitação serena das ocorrências contrárias.

Assimilação lúcida das dificuldades da estrada, abrindo campo ao improviso onde muitos desistiram.

Lágrimas que se convertem em risos.

Cansaço extremo, a se fazer repouso para os extenuados da marcha.

Privação de direitos, para que os oprimidos possam se rejubilar no Senhor.

E quando tudo pareça conspirar contra os mais nobres ideais, ainda assim se manterá firme na fé, confiante no êxito e paciente na espera.
Tens consciência disso?

Sabes que na seara do Mestre o outro tem prioridades acima das tuas?

Admites que o salário, por enquanto, é servir sem descanso, laborar sem pausa e acatar o outro como o outro é?

Se isto está bem sedimentado, bem compreendido, nada tens a te queixar. Avança um pouco mais, sorve algumas gotas da água da vida abundante e busca atender a massa de esfaimados e aflitos.

O Redentor tão aguardado te enviou antes, para que prepares os caminhos do Senhor, facultando que a paz desmonte a guerra, o amor dilua o ódio e a esperança acalme a tempestade da fúria.

Se esta ponte for bem construída, terás entendido a mensagem cristã.

Ator: Marta (Espírito)

Psicografia: Marcel Mariano

Juazeiro, 30.10.2022

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