O bom médium

O Bom Médium

Augusta de Cássia Silva Santos (membro do Ideba)

Estamos chegando ao final de mais um ano repleto de situações que merecem um olhar de reflexão voltado para compreensão dos acontecimentos. A doutrina espírita convida a realizar reflexões diárias dos nossos atos e pensamentos, conforme explica em O Livro dos Espíritos, Conhecimento de si mesmo, questão 919 (Qual meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal?), onde afirma a necessidade de mudança de conduta e comportamento através da reflexão sobre si mesmo.

Ao refletir precisamos analisar verdadeiramente as nossas falhas e buscar seguir os ensinamentos de Santo Agostinho (um dos maiores teólogos e filósofos do Cristianismo que pregava a ação de Deus na mente humana, também autor da resposta à questão 919 do LE) interrogando-nos, despindo-nos de nós mesmos, buscando esse autoconhecimento para que assim, possamos realizar a caminhada para a transformação moral dentro dos fundamentos propostos pela doutrina espírita. Todo aquele que comunga com os ensinamentos de Jesus e segue a doutrina espírita precisa fazer essa análise diariamente, principalmente aqueles que se colocam à disposição da espiritualidade servindo como médiuns, transformando-se em instrumentos do bem.

Cabe ao trabalhador do Espiritismo, em especial o médium, caminhar de acordo com os ensinamentos deixados por Jesus e os da codificação espírita compilados por Allan Kardec para que se torne um bom médium e possa exercer a mediunidade com amor fraterno. Mas, o que seria um bom médium?

De acordo com O Livro dos Médiuns, item 227, para ser um bom médium, é necessário que em primeiro lugar conheça o Evangelho, vivencie seus ensinamentos, seja moralizado, buscando exercer a humildade, a sinceridade, a paciência, a perseverança, e ser um trabalhador desinteressado, cultivando sempre a fé, a boa vontade, a compreensão, estando assim, em verdadeira harmonia com Deus. O exercício das qualidades da bondade, da benevolência, da simplicidade no coração, do amor ao próximo, e dos desprendimentos das coisas materiais conduzirá o médium, evidentemente, à aproximação com os espíritos mais elevados.

Essa conduta é de suma importância a fim de podermos vivenciar o Evangelho de Jesus em todos os instantes do dia para que não caiamos em situações ou comportamentos que venham a corromper a conduta do médium, trabalhador da doutrina, vindo a constituir um obstáculo para seu crescimento moral.

A mediunidade não é mérito para nenhum médium, é sim uma ferramenta para o crescimento do espírito encarnado.  E dessa forma ela deve ser conduzida de forma a auxiliar os necessitados que buscam por melhorias nos aspectos da moral, do emocional e do espiritual, sendo o médium instrumento a serviço da espiritualidade maior.

Vivenciar a mediunidade faz com que o médium que pratica o Evangelho esteja sempre preparado e em prontidão para o auxílio fraterno, principalmente, exercitando as relações interpessoais, sem julgamentos de condutas ou dos irmãos que procuram a doutrina para encontrar um pouco de consolo.   A má conduta do outro deve nos levar à reflexão dos nossos atos e não ao julgamento do próximo, deixando para a justiça divina esse direito.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo X – Bem-aventurados os que são misericordiosos (parte: é permitido repreender os outros, notar as imperfeições de outrem, divulgar o mal dos outros? item 19 a 21), traz a reflexão da nossa imperfeição moral e a necessidade de trabalharmos para o desenvolvimento de todos os nossos irmãos, tendo o cuidado de não julgar e nem prejudicar ao próximo, pois, dessa forma, estaremos praticando a  maledicência.

Certamente não é proibido que se veja o mal, quando ele existe. Seria mesmo inconveniente ver em toda parte somente o bem, pois essa ilusão prejudicaria o progresso. O erro consiste em fazer que essa observação redunde em prejuízo do próximo, desacreditando-o, sem necessidade, na opinião pública. Também seria repreensível fazê-lo apenas para dar expansão a um sentimento de malevolência e de satisfação em apanhar os outros em falta. Dá-se inteiramente o contrário quando, lançando um véu sobre o mal, para ocultá-lo do público, limitamo-nos a observá-lo para proveito pessoal, isto é, para nos exercitarmos em evitar o que reprovamos nos outros. São Luís (Paris, 1860).

De acordo com São Luís (ESE, 2013) devemos repreender o mal tendo o discernimento de não humilhar o nosso próximo, tomar para nós essa repreensão, observando e analisando se também não somos merecedores dela. Indicar a existência do mal apenas por maledicência é perder a oportunidade de aprender com os erros de outrem como também perder a oportunidade de praticar a caridade.

Dessa forma, podemos afirmar que ser médium difere de ser bom médium, o que pode ser compreendido quando Kardec (Revista Espirita, 1863, p. 213) afirma: “ninguém poderá tornar-se bom médium se não conseguir despojar-se dos vícios que degradam a humanidade” e afirma ainda todo homem pode tornar-se um médium; mas a questão não é ser médium; é ser bom médium, o que depende das qualidades morais”. Para alcançar essas qualidades morais, basta seguir os ensinamentos do Mestre Jesus!

 

REFERÊNCIA

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Brasília: FEB, 2013. Cap. X, p. 145-146.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2004. Questão 919. p. 517-519.

KARDEC, Allan. Revista Espirita 1863. Jornal de estudos psicológicos. jul, 1863. O médium e os espíritos.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: FEB, 2003. Cap. XX, p. 334.

 

 

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