Nossas Más Inclinações

Por algumas vezes companheiros das lides espíritas se queixam das atitudes dúbias de colegas de Doutrina. No Centro é toda candura e voz macia, como deveríamos agir sempre, se isso representasse nossa realidade espiritual.

Mas, nas redes sociais, fora da casa espírita, verdadeiros guerrilheiros a pregar o conflito, mentir e agredir o próximo, deixando a máscara cair.

Kardec nos traz uma pergunta em O Livro dos espíritos que pode nos auxiliar:
909- Poderia sempre o homem, pelos seus esforços, vencer as suas más inclinações?
Resposta: “Sim, e, frequentemente, fazendo esforços muito insignificantes. O que lhe falta é à vontade. Ah! Quão poucos dentre vós fazem esforços.”.

A casa espírita é escola que nos ensina a entender o mundo na ótica espírita. Muitos de nós aprendemos alguma coisa, chegamos a nos tornar orientadores, fazemos algum esforço para minorar nossas más inclinações. Chegamos até a praticar os princípios espiritas no cotidiano, fora do ambiente espírita.

Evidentemente, a história nos mostra, que a maioria vive apenas na superfície da prática exterior, aderindo apenas ao roteiro apresentado por instituições, durante aquele breve exercício semanal.

Daí vermos um espírita, expositor, médium, liderança, todo amor e ternura nas reuniões entre os espíritas, enquanto se revela um ser beligerante, instigador de conflitos, verdadeiro guerrilheiro virtual, a promover o ódio e a prática do mal.

Somos estes seres bipolares com brusca alteração de humor por natureza ou nos falta a reflexão diária sugerida por Santo Agostinho quando se refere ao conhecimento de si mesmo? (L.E., Pergunta 919-a).

Na sequência, explica Kardec: Muitas faltas que cometemos nos passam despercebidas. Se, efetivamente, seguindo o conselho de Santo Agostinho, interrogássemos mais amiúde a nossa consciência, veríamos quantas vezes falimos sem que o suspeitemos, unicamente por não perscrutarmos a natureza e o móvel dos nossos atos. (L.E. análise da resposta 919-a)

Outro conflito entre a orientação da Doutrina e a cobrança de uma prática do movimento espírita brasileiro reside no conceito espírita de caridade.
886. Qual o verdadeiro sentido da palavra caridade, como a entendia Jesus?

— Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições alheias, perdão das ofensas. (L.E.)

Kardec explica na sequencia desta questão a caridade além da doação material, ao desvalido, incluindo as necessidades espirituais, de ricos e pobres, onde: (…) “O homem verdadeiramente bom procura elevar, aos seus próprios olhos, aquele que lhe é inferior, diminuindo a distância que os separa” (L.E., análise a resposta 886).

Assim, as cobranças institucionais sobre participação em ações não definidas em colegiado, onde alguns acreditam ser essa ou aquela a prioridade da casa, acaba por não convencer os trabalhadores não engajados no projeto de poucos, que na maioria das vezes não conseguem diminuir a distância entre o que se pretende e o que se consegue.

O inimigo do Espiritismo, claramente, é o materialismo. Mas, para entendermos isso, precisamos conhecer o Espiritismo, sua proposta para institucionalizar o bem, evitando a esmola material aos poucos de nossa relação territorial e ideológica, mas que a sociedade se baseie na Lei de Deus, chegando aos mais fracos, conforme a pergunta 888 de O Livro dos Espíritos, sobre esmola.

O mesmo deve-se pensar sobre nossos companheiros de doutrina que ainda não se dedicaram ao desenvolvimento intelectual de escolher entre o bem e o mal. Se apressam a “praticar” o bem material aos gritos, dedos em riste, xingamentos e trombadas.
780- O progresso moral acompanha sempre o progresso intelectual? R- Decorre deste, mas nem sempre o segue imediatamente.

a- Como pode o progresso intelectual engendrar o progresso moral? R- Fazendo compreensíveis o bem e o mal. O homem, desde então, pode escolher. O desenvolvimento do livre-arbítrio acompanha o da inteligência e aumente a responsabilidade dos atos.

A Doutrina nos oferece régua e compasso, mas, as escolhas são individuais. Só não busquemos adequar a Doutrina a nossas escolhas.

Cledson Sady julho/2019
Escritor, espírita, membro da Academia Jacobinense de Letras.