Misericórdia, não sacrifício

De passo em passo, avançamos penosamente para a grande sublimação que nos aguarda. Ainda herdeiros de um passado assinalado por densas sombras e conflitos não resolvidos, pesa em nossa consciência o dever não cumprido, a tarefa inacabada, a fuga do bom combate, a traição ignominiosa. O pretérito tem sido um fardo muito pesado na maioria das almas aspirantes ao paraíso. Se consegue ser o acervo das mais sublimes experiências, igualmente representa o enlameado caminho de nossas quedas e equívocos, quase sempre nos retendo nas pesadas algemas da consciência de culpa.

Para a esmagadora maioria, libertar-se dela é um dos maiores desafios do Espírito em evolução nas trilhas do mundo.

Se em nosso favor contribui nossa adesão ao bem, a busca incessante pelo acerto nas atitudes e pela vigilância nas palavras e nos pensamentos, o ontem se converte em muitos corações em tela enevoada de lances lamentáveis, filme inquietante de nossas vidas, cujo protagonismo infeliz gostaríamos de refazer, mas…

O cenário já não é mais o mesmo, o adversário seguiu rumo desconhecido, quem ferimos buscou ignorado país e o núcleo da família, onde muitas vezes representou o cenário de nossas maiores quedas, alterou-se drasticamente, sem que saibamos, de pronto, onde localizar afetos e antagonistas para o perdão de que temos necessidade.

Sim, inegável reconhecer que somos todos almas doentes, arrastando nossos aleijões morais na marcha evolutiva.

Ao bem que deveríamos adotar por norma de vida, escolhemos livremente o mal para praticar. E pelos caminhos foram ficando marcas indeléveis, que em tempo certo, qual promissória de agiota, nos chega à contabilidade emocional para o inadiável resgate.

Entretanto, desde que o Senhor afirmou que pediu misericórdia e não sacrifício, nossos resgates e testemunhos foram suavizados pela lei de amor.

Gestos de ternura se nos conquistaram amizades de ouro. Mínima contribuição na oferta do pão aos famintos se nos abriu portas de renovado entendimento acerca da vida. Colaboração em atividades de resgate da dignidade humana nos granjearam luz na noite escura da alma, apontando rumos libertadores.

E as lágrimas voltaram a orvalhar nossos olhos, exaustos de amargura e solidão, mas agora temos a companhia do pranto de alegria no dever cumprido, no contemplar o sorriso na criança e na gratidão que brilha no semblante do atendido pelo nosso gesto despretensioso.

Novo amanhecer parece inundar nossas vidas tristes de singular alegria.

Disposição incomum assinala nosso contentamento de viver.

O presente no bem começa a diluir as teimosas sombras do ontem e nos sentimos, em muitas ocasiões, projetados em um futuro sonhado, onde inexistem o remorso e a culpa.

Sim, em tempo algum o Mestre nos abandonou ou nos deixou à própria sorte. Seu incomensurável amor, desde tempos imemoriais, tem nos guiado nas veredas ásperas do mundo, nos apontando a realidade da vida e nos despertando da letargia dos sentimentos para as emoções superiores.

Nas quedas, nos ajudou no reerguimento.

No pesadelo, nos despertou para maravilhosos sonhos de ventura e trabalho no bem.

Quando a dor pareceu nos vergar sobre a própria miséria moral, Ele ignorou o que tínhamos feito, não censurou quem éramos e investiu no nosso vir a ser.

Mesmo debilitados e atrofiados na caminhada, Ele ordenou que recolhêssemos nossa cama e caminhássemos com os próprios pés.

Se a dúvida ainda te inquieta, meu amigo, situa-te diante do espelho e examina com honestidade tua intimidade profunda.

Anota quem fostes antes de Jesus e quem és agora que O conhece.

Observa o oceano de dificuldades que atravessaste com Ele, sem que a tempestade te afundasse a frágil embarcação.

Agradece o momento que passa onde, em toda parte, podes deixar tua semente de auxílio e teu copo de água em favor da massa de sedentos.

O pouco com Ele tem sido o nosso muito de cada dia.

Não te aprisiones no pretérito doloroso e amargo. Dá o teu salto quântico em direção a esses luminosos amanheceres de esperança e trabalho, bom ânimo e contentamento de viver, buscando ser hoje melhor do que ontem e amanhã melhor do que hoje.

Jesus te conhece desde o ontem longínquo e consolida a cada instante a certeza de que somente o bem varre o mal, a luz dilui as sombras e a verdade triunfa sobre a mentira.

O resto, são farrapos de nossas ilusões.

Autor: Marta (Espírito)
Psicografia: Marcel Mariano
Salvador, 18.01.2023

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