Jesus (não) está no comando

Nesses tempos de crise moral, intelectual, socioeconômica e política, tenho ouvido frequentemente, nos meios espíritas, uma frase curiosa a respeito do Divino Mestre: “Jesus está no comando”. Às vezes, o nome d’Ele é substituído pelo de alguma outra entidade; por exemplo, Ismael. Então, “Jesus está no comando” vira “Ismael está no comando”, o que dá mais ou menos no mesmo.

Eu que, por força da profissão, sou obrigado a desconfiar do senso comum, fico a me perguntar se Jesus está mesmo no comando ou, por outra via, o que as pessoas querem dizer quando pronunciam a referida frase. Nesse caso, como em tantos outros, a resposta depende de como entendemos as palavras. Aqui, os termos críticos são o substantivo “comando” e a sua forma verbal, “comandar”. Se, por comandar, entendemos tutelar, supervisionar amorosamente, orientar os seres humanos de modo a acelerar o seu progresso e minimizar seus sofrimentos, a afirmativa procede. Contudo, se por comandar entendemos arbitrar caminhos e determinar os acontecimentos, então a afirmativa não coaduna com os ensinamentos espíritas.

A Doutrina tem como princípio basilar o livre arbítrio, que os espíritos superiores nunca violam. Apenas os inferiores, quando lhes damos campo propício, manipulam o nosso proceder em prol dos seus interesses mesquinhos. Jesus, como Espírito mais evoluído a transitar pela Terra, jamais poderia ser um manipulador de pensamentos e atos, a guiar-nos como marionetes, ou a comandar-nos como se fôssemos seus inferiores em um regimento. O único título que Jesus aceitou, ao longo da sua breve encarnação entre nós, foi o de “Mestre”, o que vale dizer, aquele que amplia horizontes e ensina a discernir, não aquele que constrange os discípulos.

É nossa a responsabilidade pelas nossas escolhas, boas e ruins. Aliás, seria muito cômodo fazer escolhas ruins e depois, ante os resultados nefastos, apelar a “Jesus no comando”. Negativo: escolhas ruins e resultados nefastos demandam, primeiro, a humildade de reconhecer que erramos, depois, o esforço de amealhar conhecimentos, aprimorar raciocínios, refletir e colocar mãos à obra para corrigir rumos, por meio da conduta ética e bem informada. Nesse sentido, claro, o Jesus e Kardec iluminam, mas não pensam por nós e nem fazem por nós aquilo que nos cabe fazer.

Espíritas de boa-fé, antes e depois das últimas eleições, andaram dizendo que Jesus (ou Ismael, pouco importa) trabalhava contra ou a favor desse ou daquele candidato. E um amigo meu, palestrante, perplexo com essa mistificação, disse-me que ficou a imaginar o ridículo de Ismael com uma bandeira de partido, fazendo campanha nos mundos superiores… Ora, Jesus disse que não seria responsável por nossas partilhas de bens (Lucas 12:13-14). Analogamente, portanto, também não é responsável por nossas votações.

A amplitude do livre arbítrio humano se confirma no suicídio: ainda que, de modo geral, o suicídio seja um dos piores delitos frente à Lei de Deus, se um indivíduo quer mesmo se suicidar, Jesus e seus Emissários permitem que o faça – não sem antes mobilizar, por meio dos médiuns disponíveis (em sentido amplo), todos os recursos para prevenir o ato extremo. Isso significa que o Mestre nos assiste da melhor forma, mas admite nossas escolhas evolutivas, por mais equivocadas e dolorosas. É assim em termos individuais e, também, em termos coletivos: colhe-se o que se planta, com os atenuantes generosos, mas regrados, da misericórdia divina.

Jesus e seus Colaboradores seguem amparando e apontando caminhos. Mas o mundo que aí está é o que criamos por meio da nossa sintonia espiritual, a materializar-se nos nossos atos e omissões. Logo, seremos nós a consertar os estragos e a proceder o trabalho renovador, para termos direito ao salário do trabalhador fiel.

Jesus não está no comando. Ou melhor, estará, somente se a nossa consciência iluminada por Seus ensinamentos comandar as nossas vidas, na esfera privada e na esfera social.

Cláudio Alves de Amorim (clamorim67@gmail.com)

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