Intolerância religiosa: até quando seremos intolerantes?

Falar sobre intolerância, seja ela qual for, não é fácil. Geralmente, não falo sobre isso porque considero como algo inadmissível na sociedade em que vivemos. Somos tão diversificados quando se trata de religião, que não tem lógica alguma sermos intolerantes com relação as metodologias (considero a religião uma) para chegar a Deus. Cada um tem o direito e livre arbítrio de fazer sua escolha. Temos várias maneiras, no dia a dia, para realizar atividades, porque buscamos um caminho menor, maior ou diferente. Isso já faz parte da nossa forma de viver, porque não somos robotizados. Por que colocam tanta energia negativa quando se trata do outro?

Quando digo outro, me referi ao modo de pensar, viver, ser feliz… Por que não respeitar o desenvolvimento individual e buscar o crescimento coletivo? Talvez, não esteja muito claro o que quero deixar registrado aqui em poucas linhas. Vou fazer um breve relato de uma situação que me deixou muito, muito incomodada. Determinada comunidade acolhe uma congregação católica de muito respeito e que muito ajuda a uma outra comunidade carente local.

Essa ajuda se dá desde a arrecadação de alimentos até o acolhimento com o estudo do Evangelho de Jesus nas casas, por meio de orações e novenas. Concordo plenamente com ações desse tipo.

Concordo, respeito e participo quando possível, mesmo sendo uma Espírita, atuante e em desenvolvimento contínuo por considerar que onde mais de um estiver reunido em nome do Pai, Ele lá estará.

Mas, os ensinamentos de Jesus são os mesmos para qualquer que seja a religião (ou metodologia como gosto de chamar). Se os ensinamentos de Jesus são iguais para todas as religiões, ora, qualquer um pode praticar e conhecer esses ensinamentos. Na Bíblia Sagrada não tem nenhuma citação que diga que o indivíduo só pode participar da única religião que escolhera, (ao menos eu não localizei esse trecho) e se declarar unicamente a essa religião. Não faço aqui apologia ao pluralismo religioso, apenas acredito que todas as metodologias, são caminhos para a caridade e o amor fraterno. Como disse acima, o que é primordial é a prática dos ensinamentos de Jesus e não a metodologia. O mês de junho é dedicado, de acordo com a igreja católica, a Santo Antônio, santo protetor dos pobres. Milhares de fiés passam os 13 primeiros dias comemorando através de orações e leitura do Evangelho de Jesus, agradecimentos e louvores. Durante esses “festejos” não se questiona a quem participa, de qual religião ela é, a pessoa é apenas convidada a adentrar ao recinto para as orações. Perfeito isso, pois todos são filhos de Deus e querem o mesmo naquele momento, que é orar e agradecer ao Pai e a Santo Antônio.

Nesse junho de 2019, Santo Antônio, “quis” nos mostrar a intolerância religiosa dentro de um dos seus núcleos de orações. De que forma? Ao saber que uma das casas elencadas para realizar o momento de oração, era de uma pessoa que apesar de “adorar” a Santo Antônio, participa e acredita na metodologia da Umbanda, o dirigente do grupo se excluiu de participar após ter recebido essa informação, provavelmente de uma integrante de seu grupo. Este voltou atrás dizendo que não poderia participar em função de seus princípios. Princípios cristãos??? Isso provocou um mal-estar muito grande a pessoa que estava na programação das orações. Mas, por ser muito religiosa e de fé, insistiu em fazer sua novena, tomando a frente de tudo, já que não havia a condução do dirigente responsável da instituição religiosa que professa essa ação.

Chegado o dia do evento, surpresa foi notar que havia apenas uma pessoa do habitual grupo de orações. Essa pessoa compreendeu que todos somos filhos de Deus e o que precisamos é fazer ao outro aquilo que gostaria que lhe fosse feito? Naquele momento tive essa certeza. A novena transcorreu bem, vez ou outra uma falha, mas nada que um retorno e desculpa da então responsável pelo evento, não resolvesse. As orações de agradecimentos finais, foram envolvidas com muito amor, sensação de dever cumprido e não podemos deixar de notar um sentimento de frustração e tristeza de ter sido banida de um grupo de orações por se enquadrar melhor e se sentir livre em buscar outra metodologia.

Todas as religiões no seu teor cristão pretendem o desenvolvimento espiritual, como ser global, e a sua religação com Deus. Precisamos compreender que o mal e o bem estão presentes nos corações das pessoas e não nas metodologias. Todos os ensinamentos de Jesus são aplicados a cada um em primeiro lugar. Se nós nos conhecêssemos como Santo Agostinho, revela em seus escritos, provavelmente, não apontaríamos um dedo para o outro, pois os três são apontados para si próprio.

Augusta de Cássia Silva Santos (membro do Ideba)

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