Ergue-te cada manhã disposto a servir.

Não encontrastes na Terra a manjedoura de teus sonhos. De teu berço ao túmulo, tuas lutas foram titânicas, teus esforços imensos e os resultados pífios.

Te entregastes às boas obras, movimentastes forças e articulastes o clima da boa vontade em derredor da promoção da dignidade humana, mas como retorno tivestes a ingratidão, a crítica e o deboche de muitos, incluindo beneficiados.

O paraíso buscado fugiu de ti a vida inteira.

Desejavas o reconhecimento de teus irmãos em derredor de tuas renúncias e em favor da filantropia praticada, mas a aridez dos corações, a secura dos sentimentos e a astúcia de aproveitadores te sabotou o entusiasmo e te feriu a alma sensível.

Quem te seguiu no começo, tão eufórico quanto tu mesmo, desistiu a meio caminho e te sobrecarregou as horas, diminuindo o tempo de teu descanso e afatigando além de teus limites.

Teus instantes de riso foram escasseando na estrada e tuas lágrimas foram se multiplicando.

Não tens mais direito a uma leitura em silêncio, a cinco minutos de meditação, a um encontro com as flores de teu jardim. Percebes claramente o cerco de espinhos humanos, homens revestidos de feras e indiferença quase generalizada.

Os doadores minguaram, mas a multidão de famintos e chagados não para de crescer.

E os teus olhos enxergam o triunfo dos ímpios, o aplauso aos hipócritas, a ovação aos desonestos, a palma da vitória aos indignos.

O rio da solidariedade é mero filete de água rasa e as necessidades humanas se assemelham a vasto oceano, onde nunca se vislumbra a margem onde ela termina.

Pensas em desistir.

Jogar a toalha.

Passar o bastão para outros interessados.

Cuidar da própria vida e deixar que Deus tome conta do coletivo.

Delegar ao governo seu papel na assistência social.

Remover teu braço da seringa e preservar-te de tanto ácido da crítica.

Sim, todas as providências são possíveis e tu as pode adotar, mas antes fixa o olhar daqueles a quem ajudas.

Olha no olho desse menino traumatizado pela miséria total, caminhando no mundo sem o amparo da família.

Anota em teu caderno íntimo essa refugiada, trafegando em teu país sem falar teu idioma e mendigando na sinaleira, buscando qualquer migalha para acalmar o estômago acossado pela fome.

Contempla esse velhinho que a muleta ampara ou que a cadeira de rodas sustenta, rejeitado pelos parentes e invisível aos órgãos públicos.

Constatas milhares de cães e gatos vivendo na rua, sem casa e sem sono, vigiando qualquer osso com o qual possam mitigar o desespero da escassez de comida.

E o que dizer a essa mãe, carregada de filhos pequenos, deambulando nas ruas atrás do pão, abandonada pelo companheiro irresponsável e cercada de feras sedentas de sexo, como se ela fosse uma rameira? Quantas lutas não terá ela sustentado até aqui para conseguir manter a salvo o resto de dignidade que lhe resta no peito?

Muitos já poderiam ter desistido da vida, e não o fizeram. Se atirado no rio ou sob as rodas de um veículo pesado, ingerido algum líquido amargo que lhes anestesiasse em definitivo a consciência, mas insistem na vivência e cada dia “matam” um leão de dificuldades.

A manjedoura deles também não existiu. Nasceram de qualquer jeito, vivem de qualquer jeito e avançam nas trilhas do mundo do jeito que podem.

Vais desistir?

Por acaso tuas lutas são menores que as deles?

Cada noite, opulenta ou modesta, uma casa te acolhe o corpo cansado e uma cama simples te oferta refazimento das fadigas.

Eles, nunca sabem onde vão deitar hoje.

Tuas paredes te protegem da chuva e do frio da madrugada. Eles, os filhos do calvário, dormem sob o cobertor das estrelas e possuem a lua por companhia.

Tu sabes quem foi e quem é Jesus. Eles apenas ouviram falar.

Meu filho, filhas do coração, enquanto houver dores e miséria, infortúnio e descaso, abandono e injustiça, Jesus pede apenas uma migalha de tua paciência, dez minutos de teu tempo e qualquer vintém de tuas posses.

Com Ele o pouco vira muito.

O muito é supérfluo.

Ergue-te cada manhã disposto a servir. Alça o pensamento em prece além de tuas fronteiras e onde estejas, com quem estejas, deixa um pouco de ti e leva um pouco do outro.

Ao final, perceberás como a vida é diferente e, em marcha com a consciência tranquila, Ele fará de tuas mãos ferramentas de amor e ramos verdes da vida abundante.

O mais, não importa.

Autor: Marta (Espírito)
Psicografia: Marcel Mariano
Feira de Santana, 23.12.2022

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