Eles estão por toda parte

Eles estão por toda parte.

Uns, em forma de lembranças. Outros, num misto de vazio e saudade.

Quadros e fotos penduradas nas paredes ou guardadas em velhos álbuns de família retratam suas passagens entre os afetos. Momentos que ficaram eternizados em clique de máquina velha.

Uma colcha bordada pelas mãos incansáveis de uma vozinha querida. Um pano de prato que o anjo materno pintou numa tarde de sonhos. Uma toalha de mesa que aquela tia deixou como tributo de seu talento.

Impossível passar por eles e não recordar que estiveram entre nós. Cada recanto da casa ou do sítio tem um apelo que renova a memória, e por isso não seja de estranhar que façamos o caminho para a necrópole, buscando manter vivo esse afeto que hoje responde por essa saudade dorida.

Uma flor num vaso singelo.

Uma vela acesa, na intenção de fazer lume nas trilhas do mais além.

E as interrogações que se agitam na intimidade, fluindo do coração ao cérebro e deste voltando aos olhos em forma de lágrimas:
– Mãezinha, cadê você?
– Meu pai, que falta você faz!
– Meu filho, porque tão cedo tua partida?
– Volta, vovó, vem contar de novo aquelas histórias do tempo de lampião!

A cadeira de balanço, parada.

O armário, hoje vazio.

Sim, por mais que o tempo, esse implacável dominador de civilizações e homens, faça a areia fina da ampulheta atravessar o gargalo entre as duas partes, o cérebro insiste na conservação de lembranças e memórias que os trazem de volta.

Seus corpos tombaram.

No lugar de um RG, agora um atestado de óbito.

E se pudéssemos, iríamos eternizar os momentos vividos com eles. Retê-los uma vez mais em nosso círculo familiar. Prestar mais atenção às suas necessidades. Atender seu desejos quase infantis na velhice doentia e frágil.

Fitar aqueles olhos cansados de lutas e de histórias.

Agora, só um imenso vazio.

Mas, assim de repente, um trecho de velha carta paulina nos chama a atenção. O convertido de Damasco, escrevendo aos coríntios, dirá em eloquência arrebatadora:
– tragada foi a morte pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?

Em derredor de nossos passos, a vida pulsa, palpita, estua. Sementes que morrem na cova desconhecida, se fazendo grelos tenros, amanhã. Ninhos com ovos hoje, prenunciando a ave robusta de logo após.

A madrugada que gargalha em triunfo às dezoito horas, diluída pelo renascer do sol às cinco da manhã.

Corpos rumando no carro triste da morte para a cova rasa, e nas maternidades o filhinho amado que chega, renovando a esperança e enchendo lares de alegria.

Curioso contraste!

Vida e morte na mesma equação. Risos agora, lágrimas daqui a pouco.

E no caudaloso curso do rio do Cristianismo, a eterna mensagem de vida, e vida em abundância. O Messias que nunca fez apologia da morte.

Devolveu equilíbrio ao tresvariado que vivia entre os sepulcros em Gadara, vítima de legião.

Acordou a filha de Jairo da catalepsia que a convertera em estátua de sal, oportunizando a continuidade do aprendizado da existência.

A mulher hemorroíssa, a quem Ele fez cessar o fluxo e estabilizou a saúde.

E ao ressurgir, triunfante, num jardim ao terceiro dia, dissolveu por completo o receio de sua aniquilação pela morte corporal. A certeza inabalável da imortalidade estava proclamada para sempre.

Não era mais uma tese, uma hipótese. Era uma realidade viva, consistente.

Eles vivem.

Não os procure entre mausoléus tristes e paredes caiadas. A maior parte sequer se detém onde os corpos apodrecem.

Eles te seguem o coração. Volveram ao antigo ninho e ali inspiram bons pensamentos. Sugerem rotas de amor. Acendem a inspiração nas horas de crise.

Continuam amando, porque o afeto não lhes estava refém do corpo passageiro. Amam de coração a coração.

Agora são invisíveis, mas não ausentes.

Gostariam muito de refazer caminhos, dissolver equívocos e atitudes precipitadas. Aclarar situações de constrangimento. Já não podem no corpo que se foi.

Ora por eles.

Termina a tarefa que deixaram interrompida.

Honra-lhes a memória com teu comportamento correto.

E caminha entre a confiança e a saudade, o afeto e o bom ânimo, na certeza inabalável de que amanhã estarás igualmente na memória dos que ficarem.

Serás, igualmente, um acervo de fotos e molduras na sala de estar. E teu coração, agora unido aos amados da retaguarda, buscará na prece de profunda gratidão, ofertar a Deus tua oblata de amor pelo dom da vida, que no corpo ou fora dele, é sempre vida, vida plena e cheia de graça.

– Muito obrigada, meu Deus, pela imortalidade que triunfa sempre sobre o aparente fim, que não passa de novo recomeço, a caminho da plenitude!

Autor: Marta (Espírito)
Psicografia: Marcel Mariano
Salvador, 02.11.2022

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