Ele ou César?

Por mais que perscrutemos a alma humana, muito improvável que saibamos de todos os dramas que assinalam cada coração que caminha conosco pela mesma estrada evolutiva. Cada alma é uma incógnita para si mesmo e um segredo para as demais. E mesmo quando existe uma larga convivência, como nos matrimônios e na parentela próxima, o outro carrega sonhos e desencantos que nem de longe podemos dimensionar.

Por isso mesmo, grande deve ser nossa compaixão de uns para com os outros. Tanto quanto desejamos que nossos sentimentos não sejam pisoteados, nos ferindo a sensibilidade, igualmente os outros desejam que seus sonhos sejam respeitados, mesmo que não passem de delírios oníricos.

Uma retrospectiva ligeira da história das civilizações nos ofertará material suficiente para constatar o quanto avançamos nas ciências e nas artes, na tecnologia e no manejo crítico da matéria, mas ao lado da matemática que calcula e da física que investiga o infinito, temos bilhões de corações que estorcegam nas inquietações da alma, carências de toda ordem e conflitos íntimos que são invisíveis.

A dor da saudade que nada parece substituir.

A lágrima do desencanto que calcina muitos corações.

O vendaval das incertezas, a fustigar multidões desarvoradas.

A alienação dos sentimentos, patrocinando o império das paixões, de funestas consequências sobre os relacionamentos interpessoais.

A ilusão, favorecendo a irracionalidade e a cegueira da alma diante dos fatos da vida.

Para auxiliar tantos descaminhos, erguemos respeitáveis instituições, educandários para crianças e jovens, aprofundamos estudos sobre a psiquê humana e elastecemos o campo da medicina, que abandonou o empirismo e a superstição do pretérito para se tornar uma doutrina de vastíssimo conteúdo para a compreensão da saúde humana.

Entretanto, se até aqui conseguimos erradicar a varíola e o crupe, o sarampo e a rubéola, não possuímos ainda vacinas contra a tristeza, antibióticos contra a depressão e as síndromes e fobias ainda são dilatados campos de investigação, reclamando mais aprofundados estudos.

Havendo um inimigo microscópico, mais fácil para a ciência descobrir seu DNA e elaborar em tempo recorde um antídoto à sua atuação patogênica, mas quando se trata de conflitos da alma, onde localizar recursos para atender tantos vitimizados?

Corações chagados por dentro.

As mulheres, cujos parceiros desertaram dos compromissos conjugais sob o manto das traições vergonhosas, ferindo de morte esses sentimentos.

As sequelas das frustrações contínuas com a política, desonrada por lobos em pele de cordeiros.

O descrédito com os religiosos inconscientes, que fizeram de seu sacerdócio cortina de fumaça para encobrir suas torpezas e se lançaram na hipocrisia e no cinismo.

Há muito mais enfermos da alma do que de corpos.

A cegueira não é somente apanágio daquele que tem as pupilas mortas para a policromia das cores. É, igualmente, daqueles que se recusam a ver o mundo como ele realmente é, entrincheirados na alienação e na fuga dos deveres.

Clama-se, de maneira urgente, por uma terapia que atenda o Espírito imortal que adoeceu. Um pronto socorro para feridos na sensibilidade. Uma UPA para o acolhimento dos não amados e não amantes.

Uma UTI para milhões na borda do suicídio, massacrados pela perda do sentido existencial.

Se presentemente tens algum equilíbrio, és um afortunado. Se uma crença lúcida e de fé raciocinada te banha o cérebro, és um privilegiado.

Em torno de ti o cordel dos insanos, a malta de depravados e o bloco dos agoniados.

Podes atender um ou outro, nem sempre todos de uma vez.

Se a mensagem do Cristo te ilumina o raciocínio e já tens perfeita consciência de teu papel no mundo, busca semear a esperança naquilo que digas, pense e faças.

Esparge otimismo.

Instado a se pronunciar, enaltece a confiança e o bom ânimo.

Caminhando entre as sombras do mundo e de muitos, acende tua candeia modesta e alumia algum trecho dessa estrada desafiadora.

Terás teus momentos de incertezas e solidão. É justo que chores teus sonhos não realizados, mas lembra-te D’Ele.

Amou o mundo de tal maneira que se deu em holocausto.

Aceitou no grupo um traidor e um que o negou três vezes.

Curou muitos. Não teve quem Lhe pensasse as feridas dos últimos instantes.

Içado num madeiro, abriu os braços em acolhimento aos tristes e desvalidos, fazendo de Sua paixão o ser humano que se demora entre duas alternativas: Ele ou César?

Se essa dúvida ainda te inquieta, reflexiona o quanto antes sobre tuas escolhas e decide.

Ele te espera e não é de hoje.

 

Autor: Marta (Espírito)

Psicografia: Marcel Mariano

Salvador, 27.06.2022

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