E aí, tem aula hoje?

Periodicamente, inspetores da vida maior descem ao campo das criaturas humanas para avaliação do aproveitamento do ser nas estações do aperfeiçoamento. Não são carrascos de condutas, inquisidores de comportamento ou fiscais implacáveis das vidas a serem aferidas.

São almas sublimadas que já venceram aqueles desertos que hoje atravessamos. Consolidaram em suas próprias jornadas a sabedoria pelo conhecimento e o amor na expressão da vivência com as dificuldades alheias. Sabem, à mancheia, que não se dorme bandido e se desperta um santo. Ninguém fecha um dia de lutas e sacrifícios, quedas e lágrimas salgadas, se fazendo redimido tão somente à custa de promessas brilhantes e votos da boca pra fora.

Visitam seus amigos e pupilos como mestres atenciosos ao aproveitamento de qualquer migalha de boa vontade.

Observam como vai indo o desprendimento em relação a bens materiais, anotam como estamos reagindo à calúnia e às pedradas periódicas do mundo contra nossos telhados de vidro.

Nossas suscetibilidades constantes no trato com a arrogância do outro.

Auscultam se já conseguimos superar mágoas, olvidar fracassos e reunir novas forças para tentar mais uma vez.

Anotam em nossos prontuários da evolução se conseguimos nos desligar das tomadas das ocorrências corriqueiras para alguns minutos de meditação, desde já exercitando a separação que ocorrerá em tempo certo, quando sobreviver a ruptura do ser que somos com a matéria na qual estamos.

Nada lhes escapa ao olhar cuidadoso, sempre destacando nossos avanços, milimétricos que sejam, no terreno sempre escorregadio das próprias imperfeições.

Essa avaliação não ocorre tão somente porque estejamos no limiar de fechar um ano civil, abrindo outro no calendário pendurado na parede. E também não ocorre quando o céu esteja de brigadeiro, com os ventos soprando a favor de nossa embarcação de sonhos.

Eles surgem em qualquer época. Nas horas felizes, é muito comum anotarem como Deus é esquecido e apenas os desejos pessoais se fazem aparecer. Já quando o mar vira, costuma-se observar o devotamento às causas nobres, o interesse pelo sofrimento alheio ou, em casos graves, o aprendiz furta-se de qualquer reflexão sobre as vantagens da dor, buscando internamento no quarto escuro da inconformação ou da revolta.

Em meio ao granizo dos testemunhos, reaprende a humildade. Na fartura, faz-se soberbo.

Contrariado em cheio nos interesses pessoais, agride e rebela-se contra as divinas leis. Atendido nesse ou naquele apelo pela Excelsa Providência Divina, exibe estranha amnésia no campo da gratidão.

Esses inspetores não aplicam castigos, não aplaudem, não reprovam.

Não estão para o ser como uma ama seca estaria para seu protegido, satisfazendo caprichos e dificultando o amadurecimento do infante para galgar a escada da evolução.

Seus pareceres ajudam as autoridades da vida maior a dilatarem oportunidades de serviços aos aprendizes interessados em mais serviço. Ao bom operário, novas ferramentas lhe são outorgadas.

A quem está lutando contra as próprias imperfeições, novas cotas de energia são disponibilizadas para que se mantenha amparado nas refregas do autoburilamento.

Entretanto, diante do aluno indisciplinado, do servidor negligente e do religioso evasivo, a pedagogia é refeita ou mantida, variando de caso para caso.

O certo é que a resignação dinâmica ajuda, a meditação ilumina e o desejo de crescer colabora com o ser em transformação. Na contabilidade divina, nem uma só ação nobre passa despercebida. Desde um sorriso até uma frase de ânimo endereçada a alguém muito contribui para superação de nossos momentos difíceis. O outro pode estar bem pior.

Quem acende uma débil claridade, ilumina o caminho para quem segue na escuridão.

É da lei que quem ajuda é ajudado, quem socorre é socorrido.

Como diria Emmanuel, quem serve, prossegue!

E aí, tem aula hoje?

Autor: Marta (Espírito)
Psicografia: Marcel Mariano
Salvador, 27.11.2022

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