De quantas Jesuínas

E em recente encontro de amigas no mais além, impossível ocultar a alegria de rever heroínas da fé e da abnegação, dos testemunhos e da coragem de marcarem seu tempo com posturas enobrecidas e atitudes comovedoras.

Ali estávamos em uma espécie de congresso de mulheres, buscando reafirmar a necessidade urgente de socorrer e amparar nossas irmãs que se acham atadas ao carro orgânico, atravessando aziagos dias numa sociedade ainda muito assinalada pela misoginia e prepotência do macho alfa.

Batalhadoras do ontem recente e outras mais antigas traziam ao imenso anfiteatro relatos pinçados nas experiências difíceis e nos triunfos que o mundo ignora.

Cecília Meireles, Auta de Souza, Maria Dolores, Aura Celeste, Zilda Arns e outras destemidas mulheres do mundo, cada uma a seu tempo, nos ofertavam comovedores relatos de lutas e sacrifícios, onde invariavelmente a família e o casamento eram cenários de embates no campo das conquistas dos direitos femininos, quase sempre olvidados entre os homens, velhos parceiros de lutas comuns.

O mito da Eva sofredora, ludibriada pela serpente astuta, a Dalila louca que decepa os cabelos de Sansão, buscando subtrair-lhe as forças orgânicas, a sedução de uma Cleópatra, tentando conquistar Marco Antônio pontuaram muitos debates, ricos de conteúdo e prenhe de dramaticidade. E um dos momentos mais aguardados era a exposição simples, mas comovente, de Jesuína, que atravessara em nosso país a noite triste do cativeiro. Arrancada do solo africano por cruéis traficantes de escravos, fora jogada como mera mercadoria num navio negreiro, aportando em Santos, alguns meses depois de penosa travessia pelo atlântico de águas quentes. Chegara desfigurada pela má alimentação e sedenta de água fresca, sendo exibida como rês num mercado que vendia negras para os trabalhos da cozinha e da limpeza na casa grande das fazendas de época.

Desde a prisão injusta e arbitrária em solo da mãe África, optara pelo silêncio e aceitação das injunções perversas, se poupando a novos martírios. Adquirida por preço vil, foi levada por rico latifundiário a uma fazenda de café no interior paulista e ali atirada numa cozinha para início de suas tarefas.

De mulher livre e feliz em Guiné, era agora um espectro de tristeza íntima, experimentando todos os dias a dorida saudade dos que ficaram na terra natal inesquecível. O banzo era seu algoz inseparável.

Estávamos magnetizadas por sua narrativa, onde lágrimas compunham seu depoimento marcante.

Ante os anos que se seguiram, foi buscando se adaptar ao cativeiro, tentando entender na sua pouca cultura que mal fizera a Deus para merecer semelhante degredo e castigo, sonhando que um dia alguém poderia lavrar um decreto, alforriando a massa de cativos.

O canto da senzala era triste.

As noites, povoadas de lamentos.

A labuta diária era exaustiva. Nenhum espaço para a alegria e quando algum evadido era capturado, ter que assistir no terreiro o escarmento era doloroso como um punhal nas carnes da alma.

A fúria do capitão do mato, quase sempre um ser desprovido de sensibilidade, atento aos rudes deveres de manter a disciplina entre os desprovidos de liberdade.

Foi quando da metrópole distante, chegaram os informes da Lei Áurea, assinada por uma mulher, princesa regente.

Jesuína chorou de alegria e sonhou que naquela noite tomava de um barco engalanado de flores e regressava aos portos da pátria natal, a rever os afetos que ficaram na retaguarda. Mas naquela mesma noite, sob descompasso da bomba cardíaca, se viu projetada da esteira humilde e um coro de crianças entoava dúlcida canção ao seus ouvidos, a convidando à resignação e à confiança em Deus:

“Mãe preta chegou, chegou de mansinho, na luz do carinho, em festa de luz;

Teus filhos te chamam, renova a esperança, eis a liberdade, feita de amor e de felicidade!

Mãe preta, deste solo gentil, no céu de anil, Jesus te espera! És preta na cor, mas todo o amor te faz uma estrela, brilhando além”.

Entre lágrimas ardentes e risos incontidos, reviu os afetos e amores da retaguarda, se deixando adormecer nos braços de veneranda entidade que lhe fora a mãezinha na Terra.

Encerrando sua fala, curta mas impactante, Jesuína foi se fazendo uma tocha viva no palco, produzindo no imenso auditório um suave perfume de nardo, que a todas atingiu. Éramos quase cinco mil mulheres.

Nenhum aplauso. Voz alguma se ergueu para destacar-lhe os méritos e a sublime posição espiritual.

Em silenciosa gratidão estávamos e nesta ficamos até que o êxtase se nos acrisolasse nas almas em definitivo.

Só nos restava volver aos caminhos do mundo e inspirar os homens para que mudem de atitude em relação às suas companheiras, parceiras, mães e filhas, educando-se para a convivência sem prepotência e arrogância, selvageria e descaso.

Quando deixava o auditório, mergulhada em fundas reflexões, pude ouvir de um grupo de amigas que dialogava num canto:

– De quantas Jesuínas precisaremos para modificar a realidade da convivência no planeta, ainda marcada pelo desrespeito e violação aos valores femininos?

Ouvi a interrogação curiosa, mas continuo sem resposta.

Quem a tiver, que responda.

Autor: Marta (Espírito)
Psicografia: Marcel Mariano
Salvador, 06.07.2022

 

84 Visita(s) a esta matéria.