Compromisso com a verdade

Imagem de S. Hermann & F. Richter por Pixabay

Em tempos de crise, como o que estamos vivendo, a palavra irresponsável, a tolice, o
pensamento raso ou deformado propagam-se velozmente, eclipsando o senso crítico.
Conforme as crenças e conveniências de alguns, multiplicam-se as retransmissões e likes , sem
o cuidado da verificação. Em casos graves, é a mentira deslavada que toma corpo – repetida,
reproduzida e curtida milhões de vezes “até se tornar verdade”, como queria o infame
Goebbels, propagandista-chefe de Hitler.

Na luta pela atenção das massas, farsantes se antecipam, a zombar da inteligência e do bom
senso. Fatos adulterados, afirmativas sem base, conceitos distorcidos e ideias mirabolantes
propagam-se, descontroladamente. A ignorância e a confusão mental de muitos abrem espaço
aos pseudo-sábios: falsos especialistas, que falam sobre quaisquer temas, incluindo aqueles
que nunca estudaram e sobre os quais nunca se debruçaram (como lembrou o amigo Cláudio
Sinoti, em palestra recente).

Nessas horas, Kardec nos inspira e socorre, não apenas por meio da Obra que nos legou, mas
pelo rigor metodológico sobre o qual a constituiu. Comprometido com a busca da verdade,
colocou os fatos acima das ideias pré-concebidas. Humilde, incentivou o debate responsável,
admitindo incertezas e discordâncias como parte do aprendizado. Sereno, poupou-se dos
arroubos emocionais frente a pontos de vista contra ou a favor dos seus. Lúcido, distinguiu
claramente entre afirmativas fundamentadas e mera opinião. Cauteloso, nunca se precipitou
em conclusões. Ético, acima de tudo, nunca sofismou, tergiversou ou ajustou suas crenças aos
interesses mundanos. Não buscou o aplauso do povo e nem o afago dos poderosos.

Por respeito ao Mestre de Lyon, livremo-nos, vez por todas, do espírito de manada. Cultivemos
o pensamento próprio, em lugar de copiar o pensamento alheio. Examinemos, detidamente, as
propostas que chegam até nós; busquemos as suas raízes e compreendamos as suas razões.
Antes de repassar informações, verifiquemos se procedem de fonte confiável. Rejeitemos,
vigorosamente, as falas e práticas políticas contrárias à moral de Jesus, mesmo que nos sejam
convenientes.

O Livro dos Médiuns ensina que ninguém está imune à mistificação. Portanto, sejamos
vigilantes quanto às sugestões dos palestrantes e médiuns, inclusive os de mais elevado status
e maior simpatia. Passemos as suas palavras e atos pelo crivo da fé raciocinada, antes de os
aplaudir e imitar, irrefletidamente.

Qualquer pessoa opina, mas poucas argumentam bem. Não existe atalho para o conhecimento
confiável. Quando a preguiça mental predomina, os falsos profetas prosperam, e a fascinação
se transforma em flagelo social. Para falar e agir com autonomia e segurança, é imprescindível
estudar, refletir e dialogar com quem nos acrescente.

Não sejamos massa de manobra ou fanáticos religiosos. Honrando a herança de Allan Kardec,
sejamos espíritas.

(Nesses dias de reciclagem intelectual, recomendo enfaticamente a leitura do saboroso livro
Olá, Consciência , de Mendo Henriques e Nazaré Barros, pela Editora É Realizações.)

Cláudio A. Amorim, 29/03/2020
clamorim67@gmail.com

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