Cada qual com sua resposta

Herdeiro de uma vasta cultura, cuidadosamente elaborada ao longo de milênios de história, o homem possui tratados e diretrizes para os mais variados desafios da vida. Pensadores e filósofos, educadores e religiosos, místicos e gurus deixaram em diversos povos os mais formosos e instrutivos manuais de como lidar com o sofrimento, mas ele prossegue sendo a pedra no sapato da caminhada terrestre.

De Sidarta Gautama a Agostinho de Hipona, de Apolônio de Tiana a Tomás de Aquino, de Zoroastro a Maomé, a questão das angústias humanas recebeu as mais diversas interpretações, emolduradas e analisadas de muitos ângulos. Ira divina, destino, fatalidade, capricho dos deuses, resultado das ações praticadas, carma, desfilaram e ainda cintilam como possibilidades de explicar as injunções dolorosas que atingem a todos, sem exceção.

O sofrimento nunca foi apanágio exclusivo das classes menos favorecidas pela deusa da fortuna. Os guetos e as favelas, o cortiço e a pobreza estiveram e estão presentes em todas as culturas do mundo, mas nas altas rodas da aristocracia, a adaga afiada das dores nunca cessou de atingir corações e mentes.

Abundância material não forra quem quer que seja contra os reveses do destino. Palacetes e castelos escondem atrás de seus muros altos os gemidos e as lágrimas dos que lá vivem, quando o espículo da dor crava-se nas carnes da alma.

E por toda parte surgiram explicações para sua ocorrência e antídotos à sua ação devastadora, buscando blindar o ser quando de seu aparecimento.

As procissões e pagamentos de promessas aos divinos poderes da vida. Os jejuns de alimentos e a peregrinação a lugares rotulados de sagrados. A oração em grupo ou isolada nos montes. Terapias diversas.

E qual látego impiedoso, o distúrbio surge inesperado, impedindo o sono noturno e fazendo das horas um calvário sem fim.

A notícia do acidente trágico que chega logo cedo, tisnando o dia de sombras e aflição. A aeronave que despencou das nuvens, arrebatando centenas de vidas. O assalto que redundou em vítima fatal, expulsa do corpo pelo projétil do psicopata em tresvario.

A doença inesperada, se apresentando quando os sonhos são mais promissores.

Sim, quando menos se espera surge a ocorrência indesejada, a notícia trágica, o acontecimento perturbador. Diluindo momentos bons e felizes, se instalam semanas de provações e meses de testemunhos difíceis.

Entretanto, consideremos…

Após aulas ministradas, surge o momento das provas.

O alpinista não adquire cordas e mochilas, víveres e equipamentos do rapel e se lança, desavisado, à primeira montanha que surge à sua frente. A conquista dos cimos gelados exige meses de treinamento, planejamento da subida, capacitação do corpo para o ar rarefeito e guia experiente.

Nenhum atleta olímpico se privou de anos de exercícios, técnicos exigentes, até lograr subir o pódio da fama e do reconhecimento do talento bem lapidado.

Quantos fracassos surgem antes da vitória almejada?

Quantas estradas escolhidas não levam o aprendiz tão somente a pântanos e pontes caídas, impedindo a passagem? E nem por isso eles desistiram.

Tenacidade garante o triunfo.

Persistência revela obstinação.

Insistência favorece o êxito.

Paciência garante a conquista da meta sonhada.

Visitado pelas ocorrências difíceis nesta manhã, busca logo cedo o contato com a prece. Nela, encontrarás forças para não sucumbir.

Reflete que embutido na aparente tragédia, existe um recado da vida. Busca decifrar o que a Providência Divina está querendo dizer.

Atingido diretamente, ampara-te no equilíbrio e administra a situação da melhor forma possível. Chamado a ajudar alguém vitimado, oferta solidariedade sem zombaria e onde tua palavra não auxilie, matricula-te na escola do silêncio operoso.

Adota as providências cabíveis sem alarde e sem agitação.

Alguém tombado. Reergue o desfalecido.

Uma mãe em convulsões de dor extrema. Sê para ela o braço que ampara sem críticas ou explicações fora de tempo.

Ninguém como Jesus lidou tão bem com o sofrimento humano. Transitou entre homens e mulheres tomados de estupor e miséria extrema. Conviveu com foragidos da justiça humana e equivocados ante os Excelsos Códigos.

Percebeu a fome castigando sem piedade os estômagos atormentados.

Mulheres perseguidas pelo macho alfa e por uma sociedade patriarcal, injusta e desumana.

Velhinhos à própria sorte.

Crianças e jovens sem perspectivas de futuro.

Para todos eles do ontem, situou as esperanças no Reino de Deus e em sua justiça, e tudo mais lhes seria acrescentado. Para nós outros, que possamos vir a nos considerar réprobos ou párias calcinados pelas ocorrências inditosas, Ele nos deixou o Sermão da Montanha e frases de alento e otimismo, esperança e coragem:
– Vinde a mim, cansados e fatigados: eu vos aliviarei!
– Bem-aventurados os que choram. Serão consolados.
– Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber. Observai as aves dos céus. Não semeiam, não ajuntam em celeiros e todos os dias o Pai as alimenta em abundância.

Com semelhantes diretrizes de luz, como estamos lidando com nossas dores?

Cada qual com sua resposta.

Autor: Marta (Espírito)
Psicografia: Marcel Mariano
Salvador, 28.09.2022

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