Allan Kardec: 150 anos depois.

O falecimento de Allan Kardec deu-se em 31/03/1869, quando o sepultamento do corpo ocorreu em 2/04/1869, no cemitério de Monmartre. Um ano depois, os espíritas da Europa decidem homenageá-lo com a construção de um dólmen no cemitério de Père-Lachaise, onde foram depositados em definitivo os restos mortais do ilustre codificador da Doutrina Espírita (31/03/1870).

H.L.D.Rivail, nasceu em Lyon, 03 de outubro de 1803, mas viveu até os 11 anos no Departamento de Ain, na cidade onde residia sua família, Bourg-en-Bresse, na localidade de Saint-Denis-lès-Bourg, com sua mãe Jeanne-Louise Duramel, sua mãe e avó materna, viúva do advogado e ex-“préfet” (governador de Ain, Benôit Marie Duramel), duas figuras femininas muito importantes na sua formação. Seu pai, Jean Rivail, falecera quando o pequeno tinha três anos de idade. Devido aos conflitos bélicos vividos na região, a senhora Jeanne-Louise resolveu mudar para Yverdon, na vizinha Suíça, matriculando o filho no Instituto Pestalozzi, do conhecido educador J.B Pestalozzi, que seria o mestre do garoto Rivail. (Figueiredo, Paulo. Revolução Espirita, 2016, p.97 a 99).

Escritor, Pedagogo e tradutor francês, discípulo de J. B. Pestalozzi, concluído os estudos, retorna à França, Paris, junto com sua mãe e avó materna. Escreveu sua primeira obra em 1824 (Curso teórico e prático de aritmética), seguindo com brilhante carreira na educação, sendo membro de várias sociedades acadêmicas, em diversas áreas do conhecimento, inclusive do magnetismo, segundo escritos de Kardec publicado em “Obras Póstumas”. Casou-se com Amelie G. Boudet, também educadora, sendo outra importante personalidade feminina que marcou a vida do educador.

Os efeitos na interrupção das diversas tarefas acumuladas por Allan Kardec na estruturação, divulgação e defesa da Doutrina Espírita, na rotina na Sociedade Parisiense e do nascente movimento espírita foram sentidos de imediato. O “bom senso encarnado”, como fora chamado por Camille Flamarion durante seu discurso no sepultamento do Mestre, contido em “Obras Póstumas”, pareceu qualidade necessária para manter o equilíbrio entre os diversos membros do movimento e na defesa do Espiritismo.

Após o falecimento de Kardec, o método da Universalidade dos ensinos dos Espíritos, explicitado na introdução de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” (1864), deixou de ser levado à risca. Piere G. Leimarie passou a exercer a função de redator chefe e diretor da Revista Espírita, não seguindo mais as orientações de Madame Allan Kardec. Abre ainda, Leimarie, no prédio da Livraria Espírita um núcleo de ocultismo, representando Helena Blavatsk, famosa exotérica, fundadora da Sociedade Teosófica, escrevendo artigos teosóficos na Revista Espírita (Figueiredo, Paulo. Revolução Espirita, 2016, p.546), além de enfrentar processo judicial, onde Amélie Boudet, já cansada e idosa, é envolvida.

Surgiu assim, dessa discordância com as atitudes de Leimarie, a União Espírita Francesa e o jornal O Espiritismo, para darem continuidade às orientações e trabalhos oferecidos por Kardec, fiéis às obras da codificação, tendo a frente Amelie Gabrielle Boudet, Berth Fropo, Alexandre e Gabriel Delanne, Leon Denis, entre outros. (Id., Ibid.).

No Brasil o Espiritismo sofre forte influência do catolicismo, desde os primeiros tempos. Proliferou e foi institucionalizado por federativas, não na unidade dos conceitos, como proposto no “Projeto- 1868” escrito por Kardec na Revista Espírita (dezembro/ 1868).

Diversas instituições surgiram ao mesmo tempo no Brasil, quando se destacou o pioneirismo de Luiz Olympio Telles de Menezes, em Salvador, que funda o Grupo Familiar de Espiritismo (17 de setembro de 1865), em sua residência, conforme registrado em “O Écho D’Além-Túmulo”, primeiro periódico espírita brasileiro (Julho de 1869, escritório na Ladeira Da Fonte das Pedras, 25, Salvador). Escreveu Telles de Menezes nesta primeira edição: (…)Católico, como somos, de nascimento e de crença, do que assaz nos congratulamos, dirigindo ao supremo criador uma fervorosa prece, para que, em nossa humildade, possamos sempre glorificar sua Infinita Bondade, não podemos ser indiferentes às feições características do Espiritismo no Brasil (TELMA, edição fac-similada da edição de número 1 de O ÉCHO D’ALÊM-TÚMULO, 1989).

Na Capital do império, especialmente entre os franceses que ali residiam, muitos deles refugiados do regime de Napoleão III, como o jornalista Adolph Hubert, o professor Casimir Lieutaud e a médium Madame Collard. Diversos grupos familiares surgiram, movidos em geral por atividades mediúnicas. Mas, a primeira instituição fundada foi a Sociedade de Estudos Espiríticos- Grupo Confúcio, em 1873 (https://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_do_espiritismo_no_Brasil, 11/02/2019, ás 19h41min).

Diversos grupos se fundiram ou se afastaram nesse primeiro momento na então capital federal. Surgiram destes movimentos a FEB, a Liga Espírita do Brasil, diversos centros espíritas e periódicos impressos. Em todo o Brasil ocorreu o mesmo, com fusões de grupos, maior ou menos identificação com os postulados de Kardec.
No decorrer do tempo o objeto de estudo da Doutrina, o Espírito, perdeu muito espaço para os médiuns e as obras romanceadas expostas a venda com o maior propósito de arrecadação financeira para suprir as demandas materiais e rotineiras das instituições, sem a devida análise da fundamentação doutrinária.
Os cursos regulares de Espiritismo, a divulgação doutrinária e os “estabelecimentos centrais”, segundo a proposta de Kardec lançada no citado projeto escrito na Revista Espírita, em 1868, observando as condições de época e tecnologia de comunicação, no Brasil, deixaram de enfatizar o método proposto; universalidade dos ensinos dos Espíritos.

Já no livro “Perfil das instituições Espíritas na Bahia” (IDEBA, 1994), na pergunta livre do questionário (p.103, perg. 222) propostos às instituições, que resultou no livro, teve como maioria das respostas sobre o futuro das Casas Espíritas: a realização de construções físicas e ampliação de atividades filantrópicas.

Com o foco citado na questão acima, pergunta-se: como formar trabalhadores com boa base teórica para dar continuidade aos cursos regulares de Espiritismo? Como avaliar as obras psicografadas a luz dos princípios básicos doutrinários sem seu devido conhecimento? Como analisar as questões da atualidade sem saber o que delas acham os espíritos superiores? Como dialogar com um espírito infeliz sem observar a prática e o método deixados por Kardec e os espíritos superiores?

O resultado é assistirmos inúmeras palestras, cursos, seminários, lermos obras ditas espíritas sem a fundamentação das obras básicas, com muito mais citação de livros que deveriam estar sendo avaliados à luz da universalidade dos ensinos e questionados pelo crivo da razão. Mas, até então, escolhemos encher as casas com o apelo popular, religioso, e não com a proposta Espírita que vai bem além destes quesitos.

Cabe aos espíritas que seguem o pensamento e método de Kardec dar outra opção àqueles que buscam conhecer o Espiritismo através do estudo criterioso de suas obras básicas e de exercer uma prática coerente com o conteúdo das mesmas, enfrentando os novos tempos e saberes como fazia Kardec; usando a razão e o bom senso.

Cledson Sady
Escritor e expositor espírita, membro da Academia Jacobinense de Letras.

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